Autismo: é possível sair do espectro?

Você já se perguntou se é possível deixar de ter o diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)?

Caso você esteja no espectro ou conheça alguém que tenha o diagnóstico, possivelmente quando refletiu sobre o futuro, já se indagou ou questionou aos médicos sobre as perspectivas ligadas ao transtorno. Afinal, essa é uma condição vitalícia?

Quando falamos no espectro autista, é preciso compreender que trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

O TEA é um transtorno que impacta no desenvolvimento do cérebro da pessoa, gerando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais.

Bom, se partirmos do pressuposto de que é “crônico”, logo, significa que quem tem TEA estará no espectro para sempre? Sim, pois faz parte do neurodesenvolvimento da pessoa.

Mas isso não significa que a pessoa terá que conviver para o resto da vida com todas as dificuldades que o TEA pode trazer.

Ficou confuso? Então, vamos esclarecer…

Quem está dentro do espectro do autismo se manterá nele por toda a vida, mas não necessariamente terá de conviver com os principais sintomas que levaram ao diagnóstico.

O que isso quer dizer?

Nos últimos anos estudos tem apontado para o fato de que com as intervenções terapêuticas, principalmente com as precoces, é possível reduzir ou até suprimir totalmente muitas das deficiências decorrentes do espectro.

Fato é que características consideradas limitantes, como por exemplo, não conseguir se comunicar de maneira funcional, não conseguir interagir mais com as outras pessoas,  não conseguir tolerar os estímulos sensoriais (por exemplo, luzes e ruídos), apresentar estereotipias que trazem prejuízos, entre outros, podem se extinguir no decorrer do desenvolvimento do indivíduo, até que fiquem clinicamente imperceptíveis.

Esse é o objeto das intervenções, mas mesmo vencendo todas essas barreiras não significa que a pessoa deixou de ser autista.

Importância do Diagnóstico Precoce

Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para que haja condições de estimular as habilidades ainda na infância por meio de intervenções multidisciplinares, que envolvem suporte clínico e psicológico.

Uma das ferramentas que contribuem com o manejo do espectro e seus sintomas em prol da evolução de quem esteja no espectro são as intervenções baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

Intervenções baseadas na ABA

Trata-se de intervenções cientificamente comprovadas que possibilitas compreender as ações e habilidades das pessoas no espectro e como elas podem ser influenciadas pelo meio ambiente. Visam  contribuir com uma melhora nas interações sociais, aprender novas competências e manter comportamentos positivos.

A ABA tem como objetivo atuar em prol do desenvolvimento do autista – desde a infância à idade adulta – com o uso de técnicas que possibilitem ampliar a capacidade cognitiva, motora, de linguagem e de integração social, procurando reduzir por meio de práticas de repetição e esforço comportamentos negativos que possam causar danos ou interferir no processo de aprendizagem.

As intervenções baseadas na ABA podem auxiliar no aperfeiçoamento de habilidades básicas, como olhar, ouvir e imitar, ou complexas, como  conversar e interagir com o outro.

Em 1987, o psicólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Ole Ivar Lovaas, relatou que metade das crianças pequenas que foram tratadas por pelo menos 40 horas por semana com ABA, demonstraram comportamentos semelhantes aos de crianças neurotípicas (fora do espectro).

De lá para cá a perspectiva com aplicabilidade de ABA como uma alternativa para desenvolver habilidades tem se demonstrado promissora.

Leia também:

Saiba mais sobre ABA e seus benefícios

Conheça alternativas terapêuticas para TEA

Referências:

Zeliadt, Nicholette. Some children may truly outgrow autismo. Spectrum News. Disponível em https://www.spectrumnews.org/news/children-may-truly-outgrow-autism/#refsAcessado em 30 de maio de 2018.

Suh J1,2, Orinstein A3,4, Barton M3, Chen CM3, Eigsti IM3, Ramirez-Esparza N3, Fein D3. Ratings of Broader Autism Phenotype and Personality Traits in Optimal Outcomes from Autism Spectrum Disorder. J Autism Dev Disord. 2016 Nov;46(11):3505-3518. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27538964

Deborah K. Anderson  Jessie W. Liang  Catherine Lord. Predicting young adult outcome among more and less cognitively able individuals with autism spectrum disorders. The Journal of Child Psychology and Psychiatry. Disponível em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jcpp.12178

Zeliadt, Nicholette. Some children may truly outgrow autismo. Spectrum News. Disponível em https://www.spectrumnews.org/news/children-may-truly-outgrow-autism/

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Asperger na vida adulta: como diagnosticar?

Você já ouviu falar no chamado “Transtorno de Asperger”? Até alguns anos atrás, era considerado um subgrupo do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Na última revisão do DSM (quinta edição), o Transtorno de Asperger passou a ser considerado uma forma branda do autismo e agora faz parte do TEA de Nível 1, sem a presença de prejuízos intelectuais ou verbais.

Mas, o que caracteriza Asperger?

Em 1944, o psiquiatra austríaco Hans Asperger publica estudo em que as crianças com autismo apresentavam limitações, mas com certa desenvoltura cognitiva e inteligência.

É dele que vem o nome “Transtorno de Asperger”  que antes era chamada de Síndrome de Asperger– considerada uma condição relacionada ao autismo, porém mais leve.

Pessoas com Transtorno de Asperger costumam apresentar inteligência média ou acima da média.

Eles não têm as dificuldades de aprendizagem que muitas pessoas autistas têm, mas podem ter dificuldades de aprendizagem específicas.

Eles têm menos problemas com a fala, mas a deficiência encontra-se nas interações sociais e no uso funcional da linguagem.

Como diagnosticar?

Para identificar Asperger é preciso um conjunto de medidas, que incluem análise de dados coletados por meio de questionários – bem como anamnese e entrevista clínica.

Após a constatação do transtorno pode ser iniciado o acompanhamento com a equipe multidisciplinar para melhorar a qualidade de vida do adulto, por meio da redução de suas limitações, bem como aprendizagem de como lidar com cada uma delas.

A Universidade de Cambridge, por meio de seu Centro de Pesquisa do Autismo (ARC) – um dos pioneiras no estudo de TEA, para avaliar a gravidade dos sintomas do espectro do autismo em crianças, mas pode ser aplicado em adultos, passou a desenvolver novos métodos para o diagnóstico tardio de Asperger na vida adulta.

Esses métodos incluem instrumentos de triagem, como o Autism Spectrum Quotient (AQ) e o Empathy Quotient (EQ); e um cronograma de entrevista para o diagnóstico em si, chamado de Adult Asperger Assessment (AAA).

Todos esses métodos foram publicados e estão disponíveis gratuitamente no site www.autismresearchcentre.com – estão em inglês – é possível usar o recurso de tradução automática disponível no navegador do Google.

Verdade é que diagnosticar o autismo (em termos de espectro) por anos foi considerado desafiador, sobretudo em adultos.

Isso se deve pois, primeiro, os indicadores de autismo podem melhorar com o tempo, à medida que as pessoas aprendem novas habilidades ou modificam as limitações sensoriais características do espectro.

Apesar de um aumento recente na conscientização sobre o autismo, os indivíduos nascidos com o transtorno entre as décadas de 1940 e 1980 podem ter vivido suas vidas com múltiplos problemas, seja decorrente da ausência ou erro no diagnóstico para os então subtipos do que atualmente compreendemos como “TEA”.

Diagnóstico tardio

De acordo com pesquisadores de Cambridge o diagnóstico tardio impactou por anos a vida de muitas pessoas, que tiveram seu desenvolvimento infantil e sua convivência social (como na escola) prejudicados, pela ausência da compreensão do distúrbio, o que possibilitaria haver um suporte no que cabe ao aperfeiçoamento das limitações.

Por isso, a detecção precoce da condição é fundamental para melhorar a qualidade de vida daquele que está no espectro, por meio de um despertar de consciência em relação ao distúrbio, permitindo que sejam trabalhadas as limitações.

Leia também: É possível sair do espectro?

Referências:

Asperger syndrome. What is Asperger syndrome? The National Autistic Society. Disponível em http://www.autism.org.uk/about/what-is/asperger.aspx Acessado em 10 de maio de 2018.

Murphy CM, Wilson CE, Robertson DM, et al. Autism spectrum disorder in adults: diagnosis, management, and health services development. Neuropsychiatric Disease and Treatment. 2016;12:1669-1686. doi:10.2147/NDT.S65455. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4940003/ Acessado em 11 de maio de 2018.

Trevor Powell, DClinPsych and Louise Acker, BSc. Adults’ Experience of an Asperger Syndrome Diagnosis: Analysis of Its Emotional Meaning and Effect on Participants’ Lives. Sage Journal. Vol 31, Issue 1, pp. 72 – 80. First Published May 29, 2015. Disponível em < http://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1088357615588516> Acessado em 10 de maio de 2018.

Very late diagnosis of Asperger Syndrome. Interative Autism Network. Disponível em https://iancommunity.org/cs/articles/very_late_diagnosis_of_asperger_syndrome Acessado em 11 de maio de 2018.

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Prevalência do autismo aumenta para 1 criança a cada 59 nos EUA

A prevalência do autismo aumentou para 1 criança a cada 59 nos EUA, de acordo com os dados do CDC.

Pesquisadores da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins (Maryland, EUA) publicaram um novo relatório dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

Eles observaram que a prevalência de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) aumentou, sendo de 1 para cada 59 crianças.

Portanto, isso marca um aumento de 15% em relação ao último levantamento, emitido há dois anos.

Esse número é considerado o maior indicador já rastreado desde que o CDC começou a avaliar os dados referentes ao distúrbio, no ano 2000.

Ademais, esse foi o sexto relatório emitido desde então.

Embora os indicadores apontem para um aumento no número de casos, os pesquisadores não sabem quanto desse crescimento pode ser atribuído de fato a existência de novos casos diagnosticados.

O que contribui para o aumento da prevalência?

O que os cientistas acreditam é que existem outros fatores que podem estar contribuindo para o aumento da prevalência do autismo.

Esses fatores são: maior conscientização quanto a existência do espectro, melhora na triagem, nos serviços de diagnóstico, no tratamento e serviços de intervenção, melhor documentação dos comportamentos de TEA e mudanças nos critérios para identificar o distúrbio precocemente.

Todavia, para este novo relatório, o CDC coletou dados em 11 locais de monitoramento regionais que fazem parte da chamada Rede de Monitoramento de Incapacidades do Autismo e Desenvolvimento (ADDM).

Estes locais estão nos seguintes estados: Arizona, Arkansas, Colorado, Geórgia, Maryland, Minnesota, Missouri, Nova Jersey, Carolina do Norte, Tennessee e Wisconsin.

Além dos dados que revelaram o aumento de casos, foi observado ainda que há uma prevalência do autismo 20% a 30% maior entre crianças brancas em comparação com crianças negras.

A prevalência do Autismo é maior em meninos

Além disso, algumas tendências permanecem semelhantes ao relatório que antecede a esse, como a maior probabilidade de os meninos serem diagnosticados com TEA. (Leia: “Autismo em meninas: por que é mais difícil diagnosticar“)..

Os meninos tinham quatro vezes mais chances de serem identificados com TEA do que meninas. No relatório atual, a taxa é 1 em 38 entre os meninos (ou 2,7 por cento) e 1 em 152 entre as meninas (ou 0,7 por cento).

As causas do autismo não são completamente compreendidas; estudos mostram que tanto o ambiente quanto a genética podem desempenhar um papel. 

O CDC recomenda que os pais acompanhem o desenvolvimento infantil e ajam rapidamente para que seus filhos sejam examinados se tiverem alguma preocupação.

No Brasil ainda não há novos estudos que demonstrem se houve crescimento no número de casos de TEA.

Conforme publicado em NeuroConecta, no artigo “O que é autismo”, “Estima-se que o autismo atinge 1-2% da população mundial conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Destes, 2-4 milhões estão no Brasil segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).”

Referências

Baio J, Wiggins L, Christensen DL, et al. Prevalence of Autism Spectrum Disorder Among Children Aged 8 Years — Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 Sites, United States, 2014. MMWR Surveill Summ 2018;67(No. SS-6):1–23. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.ss6706a1.Disponível em https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/67/ss/ss6706a1.htm  Acessado em 27 de abril de 2018.

EurekAlert. Researchers say racial and ethnic disparities are narrowing. Johns Hopkins PR.  Disponível em https://eurekalert.org/pub_releases/2018-04/jhub-uar042618.php Acessado em 27/04/2018.

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Neuroplasticidade e o cérebro no TEA

A chamada “neuroplasticidade” pode ser definida como a capacidade que o cérebro possui de se reorganizar, e então, de modificar sua estrutura em resposta aos estímulos que recebe do meio ambiente externo.

Portanto esse “treinamento” possibilita a evolução do potencial neuronal, ou seja, o desempenho dos neurônios responsáveis por atuar em atividades como linguagem, motoras e sociais.

O que significa neuroplasticidade?

Neuroplasticidade significa que o cérebro humano pode ser considerado altamente plástico!

Aliás, para quem está no Transtorno do Espectro Autista (TEA) a neuroplasticidade significa a possibilidade desenvolver e aperfeiçoar as habilidades do autista por meio das experiências as quais o autista vai sendo submetido, em amplos sentidos, sobretudo sensoriais: audição, paladar, tato, olfato e visão.

Importância da intervenção precoce na neuroplasticidade

Contudo, para “ativar” o potencial que a neuroplasticidade pode ter sobre a condição de quem está no TEA, é importante principalmente empreender ações de aprendizagem que estimulem os neurônios de maneira a contribuir com a melhora nos processos de reabilitação.

Por isso o diagnóstico e intervenção precoce é considerada fundamental, pois pode melhorar significativamente a capacidade da criança de desenvolver habilidades sociais, de comunicação e de autocuidado. I

Certamente iniciar o tratamento o mais cedo possível pode maximizar o potencial de aprendizado da criança e reduzir os desafios comportamentais ao longo da vida.

Portanto, quanto mais cedo são introduzidas novas práticas e rotinas terapêuticas capazes de estimular o funcionamento do cérebro, mais os neurônios podem ser treinados a superar as limitações decorrentes do transtorno.

Leia também: Plasticidade cerebral e poda neural: compreenda a conexão com o TEA

Assim, na medida em que a neurociência evolui – campo de estudo dedicado à compreender o mecanismo do cérebro humano – mais surgem avanços que possibilitam a compreensão da neuroplasticidade no TEA.

Acompanhe as notícias em nosso site e fique por dentro dos avanços científicos sobre Autismo!

Referências:

Raun K. Kaufman. Neuroplasticity. (Can your child’s brain change?). Disponível em http://blog.autismtreatmentcenter.org/2017/01/neuroplasticity-can-your-childs-brain-change.html Acessado em 31 de março de 2018.

Jeffrey A. Kleim and Theresa A. Jones. Principles of Experience-Dependent Neural Plasticity: Implications for Rehabilitation After Brain Damage. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, February 2008, Vol. 51, S225-S239. doi:10.1044/1092-4388(2008/018). History: Received February 27, 2006; Accepted February 7, 2007. Disponível em <https://jslhr.pubs.asha.org/article.aspx?articleid=1773394> Acessado em 28 de março de 2018.

Neuroplasticity and young children with autism. A tutorial.Anatomy & Physiology: Current Research. Disponível em https://www.omicsonline.org/open-access/neuroplasticity-and-young-children-with-autism-a-tutorial-2161-0940-1000209.php?aid=69619#3Acessado em 28 de março de 2018.

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Autismo em meninas: por que é mais difícil diagnosticar?

Estudos apontam para uma maior prevalência de casos de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em meninos do que casos de autismo em meninas, sendo cerca de 1 menina para cada 3-4 meninos, conforme dados dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças norte-americano (CDC).

Aliás, até alguns anos atrás a prevalência de estudos voltados para compreender o espectro eram prevalentemente centrados em homens, o que pode ter facilitado o diagnóstico nesse grupo.

Entretanto, essa realidade vem mudando. Pesquisadores têm observado que o TEA pode, na verdade, estar sendo subdiagnosticado em pessoas do sexo feminino e haver mais mulheres no espectro do que se imagina.

Mas, por que é tão difícil diagnosticar o distúrbio no sexo feminino?

Certamente, entre as razões que podem explicar o porquê de o autismo ser mais complexo de se identificar nas meninas, está o fato de as técnicas diagnósticas desenvolvidas serem voltadas para as especificidades do TEA no sexo masculino, exatamente por ser esse o gênero mais prevalente em estudos sobre o TEA.

Ademais, meninas não se encaixam em grande parte dos estereótipos do espectro e, também, tendem a mascarar os sintomas melhor que os meninos. Esse é o caso do comportamento social, considerado um dos maiores fatores para identificar o TEA.

Todavia, meninas tendem a disfarçar mais suas limitações sociais em relação aos meninos, por apresentarem a capacidade de imitar comportamentos de outras meninas da mesma idade. Elas também parecem ter menos atitudes repetitivas e restritas que os meninos no TEA.

Essa “ausência” de estereotipias bem demarcadas, pode contribuir para dificultar uma suspeita de autismo. Isso se deve à estrutura cerebral, que difere entre meninos e meninas, na região do cérebro responsável pela capacidade motora. Além disso, aspectos hormonais podem estar ligados às diferenças entre meninas e meninos com TEA.

O que os estudos dizem?

Estudos também apontam que meninas precisam apresentar dificuldades comportamentais ou intelectuais mais severas para que se pense em autismo como causa desses déficits.

Sendo assim, quando o distúrbio é mais leve, pode passar anos sem ser identificado ou, até mesmo, ter sua condição equivocadamente considerada como outro transtorno, como de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), obsessivo-compulsivo (TOC) e, até mesmo, alimentar, como anorexia.

Quando identificadas tardiamente no espectro, as meninas perdem a oportunidade de terem suas habilidades desenvolvidas precocemente, o que pode melhorar sua condição.

A boa notícia é que cada vez mais estudos têm se voltado para analisar o sexo biológico e os papeis de gênero e como esses fatores podem ensinar mais sobre o autismo em meninas.

A ideia é avaliar a população feminina com autismo, desde a infância até o início da idade adulta e traçar novos modelos de diagnóstico, não apenas pautados nas características masculinas, como os atuais.

Por meio desses avanços nessa área de estudo do TEA deverá ser possível direcionar melhor as condutas terapêuticas em conformidade com as necessidades específicas de meninas.

Referências:

Erin Digitale. Girls and boys with autism differ in behavior, brain structure. Stanford Medicine News Center. Disponível em https://med.stanford.edu/news/all-news/2015/09/girls-and-boys-with-autism-differ-in-behavior-brain-structure.html Acessado em 24 de março de 2018.

Jennifer Malia. A New Look at How Autism Affects Girls. The Cut. Disponível em < https://www.thecut.com/2017/08/a-new-look-at-how-autism-affects-girls.html> Acessado em 24 de março de 2018.

Maia Szalavitz. Autism—It’s Different in Girls. Scientific American. Disponível em https://www.scientificamerican.com/article/autism-it-s-different-in-girls/ Acessado em 25 de março de 2018.

Why Many Autistic Girls Are Overlooked. Child Mind Institute. Disponível em https://childmind.org/article/autistic-girls-overlooked-undiagnosed-autism/ Acessado em 25 de março de 2018.

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Estudo apresenta um novo horizonte para o Transtorno do Espectro do Autismo

Brasileiros publicam estudo pioneiro que apresenta um novo horizonte para o Transtorno do Espectro do Autismo.

Sobre a tecnologia

Pesquisadores brasileiros descobriram o que pode ser um novo horizonte para quem possui Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Surpreendentemente, por meio de uma tecnologia de reprogramação celular, cientistas identificam pela primeira vez o papel do astrócito, uma importante célula no sistema nervoso.

Assim, eles verificaram que além dos neurônios, outro importante grupo de células do cérebro chamadas “astrócitos” possui papel fundamental no funcionamento do sistema neuronal, sendo peça-chave para compreender o mecanismo do espectro e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento do tratamento para o distúrbio, de maneira personalizada.

Além disso, este é o primeiro artigo no mundo a analisar o papel dos astrócitos no autismo idiopático, ou seja, de causa desconhecida.

Denominado “Modelando a interação entre neurônios e astrócitos no autismo usando células-tronco pluripotentes induzidas por humanos” (tradução livre), o estudo – de autoria de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade da California, San Diego – acaba de ser publicado no periódico científico Biological Psychiatry, revista oficial da Sociedade de Psiquiatria Biológica.

Sobre os astrócitos

Aliás, antigamente se acreditava que os astrócitos eram apenas uma espécie de suporte físico para os neurônios.

Agora, isso mudou. “Verificamos que os astrócitos são na verdade muito importantes no TEA. Estas células são responsáveis por sustentar e nutrir os neurônios e estão envolvidos em diversas atividades cerebrais.

Desta forma, eles regulam a concentração de diversas substâncias do sistema neuronal, tendo assim potencial para interferir nas funções cerebrais de quem tem o espectro autista”, esclarece a autora principal, a neurocientista Fabiele Russo, que também é a idealizadora do portal NeuroConecta. (confira ao final entrevista com Fabiele Russo e saiba mais sobre sua tese de doutorado, que originou o paper).

O que foi observado?

Então, “procuramos entender de que forma o astrócito autista influência no neurônio saudável e vice e versa”, relata Dra. Fabiele.

Assim, os cientistas analisaram neurônios e astrócitos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), obtidas a partir da polpa do dente de leite de três pacientes com transtorno autista e três sem autismo ou qualquer outro transtorno neurológico – as chamadas crianças neurotípicas (grupo controle).

“A descoberta demonstrou que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio poderá ser recuperado. Ou seja, o astrócito com autismo influi no neurônio controle. E o contrário também é verdadeiro. O astrócito saudável recuperou de alguma forma o neurônio afetado pelo distúrbio”, explica a neurocientista.

Portanto percebeu-se que não deve se focar apenas em testar drogas direcionadas para tratar neurônios, mas também para os astrócitos.

Embora ainda que haja muito a se caminhar até que seja possível aplicar os achados na prática em pessoas com o distúrbio, a neurocientista considera os resultados como um divisor de águas no tratamento do TEA.

“Acreditamos que nosso estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro autista, trazendo contribuições para a comunidade científica e, sobretudo, aos pacientes, que poderão se beneficiar de intervenção terapêutica direcionado para sua especificidade dentro do TEA”, avalia a neurocientista.

Ela complementa que é por meio da intervenção terapêutica no desenvolvimento do autista que é possível ampliar a independência funcional e possibilitar qualidade de vida do autista e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento de diferentes competências: sociais, de linguagem, motoras, psicológicas e intelectuais.

Primordialmente, esse estudo, que contou com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), faz parte do Projeto Fada do Dente sendo o primeiro da iniciativa a ter seus resultados publicados em revista científica.

Sobre o Projeto A Fada do Dente

O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da Professora da USP Patrícia Beltrão Braga.

Então, O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo. Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

Acesse “Modeling the interplay between neurons and astrocytes in autism using human induced pluripotent stem cells” em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006322317320097

Leia também em NeuroConecta:

Minicérebros para o estudo do TEA

Saiba mais sobre o autismo

O autismo ou “Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)”, é caracterizado por uma desordem cerebral que impacta no desenvolvimento da pessoa, podendo interferir na forma como ela percebe o mundo ao redor e interage com os outros, ocasionando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais.

Trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

Estima-se que o autismo atinge cerca de 1-2% da população mundial.

Com isso, temos cerca de 2-4 milhões de autistas no Brasil.

NeuroConecta Entrevista: diálogos com a pesquisadora

Compreendendo o impacto dos astrócitos no TEA

Conversamos com a neurocientista Fabiele Russo, autora principal do primeiro estudo a analisar a influência dos astrócitos no transtorno do espectro do autismo.

Fabiele, que é idealizadora do Blog NeuroConecta, esclarece que este estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro do autismo, trazendo benefícios para a comunidade científica e, sobretudo, aos indivíduos, que poderão se beneficiar no futuro.

Saiba mais.

NeuroConecta: De que forma os resultados alcançados neste estudo contribuem/impactam tanto para a comunidade científica quanto para os pacientes com TEA?

Fabiele Russo: Este é o primeiro trabalho que relaciona os astrócitos com o autismo idiopático. Há estudos sobre papel desta célula no sistema nervoso, mas com este recorte específico no espectro do autismo, somos os pioneiros.

Por meio desta pesquisa uma nova perspectiva se abre. A de olhar para os astrócitos. Isso possibilitou compreender que não adianta tratar o neurônio se o astrócito continuar doente.

Conseguimos compreender que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio será recuperado. O próximo passo será desenvolver novas vias de tratamento voltadas não apenas para os neurônios, mas para os astrócitos.

Este estudo faz parte do Projeto Fada do Dente, do qual fui uma das primeiras alunas a ingressar, em 2009.

O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da bióloga Patrícia Beltrão Braga e sua equipe. O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo.

Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

NeuroConecta: Qual o papel dos astrócitos na manutenção neuronal? De que forma eles contribuem com o entendimento do TEA?

Fabiele Russo: Sempre nos preocupamos com neurônios quando pensamos numa doença ou transtorno ligado ao sistema nervoso central. Agora, sabemos que eles não são os únicos a se observar dentro do universo do espectro autista. O astrócito é fundamental.

Ele é a célula da glia mais abundante do sistema nervoso central. Se ele não estiver bom, o neurônio poderá ser afetado. Esta célula participa de várias funções cerebrais: nutrição, suporte na sinaptogênese (conexão entre os neurônios), entre outros aspectos.

Antigamente acreditava-se que os astrócitos serviam apenas como um suporte mecânico. Hoje sabemos que estas células têm diversas funções: são responsáveis por nutrir os neurônios, entram em contato com os vasos sanguíneos, pegam o alimento e enviam para os neurônios.

É o astrócito que participa das sinapses (conexões entre neurônios). Um único astrócito participa de milhares de sinapses ao mesmo tempo, e da produção de novas conexões nervosas (sinaptogênese).

Este mecanismo do astrócito em conjunto com os neurônios é responsável pelo surgimento de capacidades funcionais.

NeuroConecta: Como a reprogramação celular, por meio do uso de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), tem modificado o cenário do TEA?

Fabiele Russo: Primeiramente, é preciso esclarecer que a reprogramação celular hoje não é para diagnóstico, mas sim têm sido empregada com êxito no campo da medicina terapêutica, como meio de estudar os mecanismos de determinada doença ou transtorno, como o transtorno do espectro do autismo, e utilizar essa plataforma para testar drogas-alvo.

Quando falamos em terapêutico, não é injetar células-tronco nos pacientes, mas sim testar medicamentos na célula do paciente que você coletou e reprogramou.

No caso, nossa matéria-prima é o material coletado da polpa do dente de crianças com autismo.

Coletamos a célula do dente e reprogramamos para ter uma célula pluripotente, que é parecida com uma célula embrionária, e a partir desta célula nós produzimos a chamada célula-alvo de interesse.

No caso do autismo – estas células são os neurônios e astrócitos. Então, podemos testar drogas nestas células, pensando que ela terá o material genético daquele paciente.

Além disso, como o autismo idiopático é um transtorno muito complexo, sem causa genética específica, esta prática é super interessante, sobretudo, dentro da medicina personalizada.

Poderemos testar a ação e eficácia de cada medicamento para este indivíduo. Esta é a chamada medicina personalizada, que acredito ser o futuro terapêutico para o TEA e para outros distúrbios.

Concluindo

Enfim, nossos dados indicam que os astrócitos influenciam na maturação, na complexidade e funcionalidade dos neurônios, mostrados aqui pela primeira vez para o autismo idiopático.

Além disso, com este trabalho podemos afirmar que é possível modelar o autismo idiopático in vitro e estudar formas de resgate fenotípico das células afetadas visando futuras terapias.

Assim, observamos também que, por meio da reprogramação celular, pode ser possível reduzir o tempo de aprovação de drogas (as novas e as que já tem liberação para uso) que podem contribuir para o tratamento clínico do TEA, sem a necessidade de passar por diversas etapas de testes.

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