Autismo: é possível sair do espectro?

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Você já se perguntou se é possível deixar de ter o diagnóstico de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)?

Caso você esteja no espectro ou conheça alguém que tenha o diagnóstico, possivelmente quando refletiu sobre o futuro, já se indagou ou questionou aos médicos sobre as perspectivas ligadas ao transtorno. Afinal, essa é uma condição vitalícia?

Quando falamos no espectro autista, é preciso compreender que trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

O TEA é um transtorno que impacta no desenvolvimento do cérebro da pessoa, gerando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais.

Bom, se partirmos do pressuposto de que é “crônico”, logo, significa que quem tem TEA estará no espectro para sempre? Sim, pois faz parte do neurodesenvolvimento da pessoa.

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Mas isso não significa que a pessoa terá que conviver para o resto da vida com todas as dificuldades que o TEA pode trazer.

Ficou confuso? Então, vamos esclarecer…

Quem está dentro do espectro do autismo se manterá nele por toda a vida, mas não necessariamente terá de conviver com os principais sintomas que levaram ao diagnóstico.

O que isso quer dizer?

Nos últimos anos estudos tem apontado para o fato de que com as intervenções terapêuticas, principalmente com as precoces, é possível reduzir ou até suprimir totalmente muitas das deficiências decorrentes do espectro.

Fato é que características consideradas limitantes, como por exemplo, não conseguir se comunicar de maneira funcional, não conseguir interagir mais com as outras pessoas,  não conseguir tolerar os estímulos sensoriais (por exemplo, luzes e ruídos), apresentar estereotipias que trazem prejuízos, entre outros, podem se extinguir no decorrer do desenvolvimento do indivíduo, até que fiquem clinicamente imperceptíveis.

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Esse é o objeto das intervenções, mas mesmo vencendo todas essas barreiras não significa que a pessoa deixou de ser autista.

Importância do Diagnóstico Precoce

Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental para que haja condições de estimular as habilidades ainda na infância por meio de intervenções multidisciplinares, que envolvem suporte clínico e psicológico.

Uma das ferramentas que contribuem com o manejo do espectro e seus sintomas em prol da evolução de quem esteja no espectro são as intervenções baseadas na Análise do Comportamento Aplicada (ABA).

Intervenções baseadas na ABA

Trata-se de intervenções cientificamente comprovadas que possibilitas compreender as ações e habilidades das pessoas no espectro e como elas podem ser influenciadas pelo meio ambiente. Visam  contribuir com uma melhora nas interações sociais, aprender novas competências e manter comportamentos positivos.

A ABA tem como objetivo atuar em prol do desenvolvimento do autista – desde a infância à idade adulta – com o uso de técnicas que possibilitem ampliar a capacidade cognitiva, motora, de linguagem e de integração social, procurando reduzir por meio de práticas de repetição e esforço comportamentos negativos que possam causar danos ou interferir no processo de aprendizagem.

As intervenções baseadas na ABA podem auxiliar no aperfeiçoamento de habilidades básicas, como olhar, ouvir e imitar, ou complexas, como  conversar e interagir com o outro.

Em 1987, o psicólogo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Ole Ivar Lovaas, relatou que metade das crianças pequenas que foram tratadas por pelo menos 40 horas por semana com ABA, demonstraram comportamentos semelhantes aos de crianças neurotípicas (fora do espectro).

De lá para cá a perspectiva com aplicabilidade de ABA como uma alternativa para desenvolver habilidades tem se demonstrado promissora.

Leia também:

Saiba mais sobre ABA e seus benefícios

Conheça alternativas terapêuticas para TEA

Referências:

Zeliadt, Nicholette. Some children may truly outgrow autismo. Spectrum News. Disponível em https://www.spectrumnews.org/news/children-may-truly-outgrow-autism/#refsAcessado em 30 de maio de 2018.

Suh J1,2, Orinstein A3,4, Barton M3, Chen CM3, Eigsti IM3, Ramirez-Esparza N3, Fein D3. Ratings of Broader Autism Phenotype and Personality Traits in Optimal Outcomes from Autism Spectrum Disorder. J Autism Dev Disord. 2016 Nov;46(11):3505-3518. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27538964

Deborah K. Anderson  Jessie W. Liang  Catherine Lord. Predicting young adult outcome among more and less cognitively able individuals with autism spectrum disorders. The Journal of Child Psychology and Psychiatry. Disponível em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/jcpp.12178

Zeliadt, Nicholette. Some children may truly outgrow autismo. Spectrum News. Disponível em https://www.spectrumnews.org/news/children-may-truly-outgrow-autism/

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Dra. Fabiele Russo

Neurocientista, especialista em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Pesquisadora na área do TEA há mais de 10 anos. Mestre e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com Doutorado “sanduíche” no exterior pelo Departamento de Pediatria da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD). Realizou 4 Pós-doutorados pela USP. É cofundadora da NeuroConecta e também, coautora do livro: Autismo ao longo da vida.