O que é o autismo (TEA)?

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O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) ou autismo, é um transtorno do neurodesenvolvimento que traz prejuízos na comunicação e interação social e no comportamento da criança.

Portanto, pode interferir na forma como ela percebe o mundo ao redor e interage com os outros, ocasionando esses desafios sociais.

O autismo trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

Inicialmente, o autismo era enquadrado como uma forma de esquizofrenia, o que levou à crença de que poderia ter sua causa ligada a alguma experiência negativa ou por consequência de má criação dos pais ou responsáveis. Mas, este conceito já foi mais do que refutado pela ciência.

Causas do Autismo

Atualmente sabemos que as causas do autismo são poligênicas (centenas de genes envolvidos) e multifatoriais (diversos fatores, sendo genéticos e ambientais).

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Sabemos também que as causas são majoritariamente genéticas (em cerca de 98% dos casos). Além disso, existem diversos fatores ambientais que aumentam o risco para o desenvolvimento do TEA como por exemplo idade avançada dos pais, uso de maconha durante a gestação, infecções durante a gestação, entre outros.

Nos últimos anos muito se avançou em pesquisas, bem como na prática clínica. Portanto, isso vem contribuindo com melhoria da qualidade de vida do autista e com o diagnóstico precoce do transtorno.

O autismo pode ser classificado conforme o nível de necessidade de suporte da pessoa, sendo considerados três níveis: nível 1 ( conhecido como “autismo leve”), nível 2 (conhecido como “autismo moderado”) e nível 3 (conhecido como “autismo severo”).

Prevalência de autismo

Os casos de TEA são mais comuns do que se pode imaginar, sendo mais recorrentes entre o sexo masculino do que no feminino.

Pode ser observado em todos os grupos raciais, étnicos e sociais. Estima-se que o autismo atinge cerca de 1% da população mundial, 70 milhões de pessoas no mundo conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Destes, cerca de 2 milhões estão no Brasil segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os últimos dados do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA em 2020 trouxeram uma prevalência ainda maior, sendo de 1:36, ou seja, cerca de 3% das crianças em idade escolar estão dentro do espectro do autismo nos EUA. Portanto, se trouxermos esses dados para o Brasil podemos dizer que temos cerca de 6 milhões de autistas em nosso pais e não 2 milhões.

Como é realizado o diagnóstico do Autismo?

O diagnóstico do autismo é clínico e é baseado nas evidências científicas destacadas pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Sociedade Norte-Americana de Psiquiatria, conhecido também como DSM-5, pois está na sua quinta edição.

Sendo assim, O DSM-5 é o ponto de partida para identificar se uma pessoa tem ou não o Transtorno.

Os 5 critérios que estão descritos no DSM-5 são:

A) Déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, conforme manifestado por TODOS os seguintes aspectos, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos):

1) Déficit na reciprocidade socioemocional
2) Déficit na comunicação não verbal
3) Dificuldade em desenvolver, manter e compreender relacionamentos

B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes, atualmente ou por história prévia (os exemplos são apenas ilustrativos, e não exaustivos):

1) Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou girar objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).
2) Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente).
3) Interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos ou perseverativos).
4) Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas

C: Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento (mas podem não se tornar plenamente manifestos até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida).

D: Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.

E: Sinais não são mais bem explicadas por transtorno do desenvolvimento intelectual ou por outros transtornos.

Como é o processo diagnóstico?

Para chegar a um diagnóstico de autismo, o médico especialista, geralmente o neuropediatra ou o psiquiatra infantil, realiza uma entrevista com os pais e observa a criança para avaliar os comportamentos. Além do médico especialista é importante ter uma equipe multidisciplinar para auxiliar neste diagnóstico. Essa equipe é formada por psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, assistente social, psicopedagogo entre outros profissionais que podem fazer parte da equipe.

Em alguns casos é solicitado testes genéticos ou exames específicos para identificar problemas de saúde relacionados com o autismo e para descartar outras síndromes. Mas não há exames de imagem ou de laboratório que confirmem o autismo. O diagnóstico do autismo é clínico! 

Em muitos casos o diagnóstico costuma ocorrer quando a criança tem cerca de 3 anos de idade, mas é possível diagnosticar bem mais cedo quando alguns sinais já são perceptíveis. Não existe idade mínima para fechar diagnóstico de autismo. Quanto mais precoce melhor, pois quanto antes iniciarmos as intervenções melhor será para o desenvolvimento da criança.

Em casos de nível 1 (“autismo leve) o diagnóstico é geralmente realizado mais tarde quando a demandas sociais aumentam e o sinais ficam mais perceptíveis. Infelizmente muitos autistas ainda recebem o diagnóstico somente na vida adulta.

Saiba mais: Por que escolher intervenções baseadas na ABA para autistas?

Algumas sinais comuns no autismo

Entre os sinais comuns que podem ser observados em pessoas com autismo podemos destacar:

  • Dificuldades na interação social
  • Atraso no desenvolvimento da fala
  • Dificuldade em fazer contato visual
  • Dificuldades em iniciar ou manter uma conversa
  • Ecolalias
  • Dificuldades em entender comunicação não verbal (gestos, expressões facial, entre outras)
  • Movimentos motores repetitivos (balançar de mãos, do corpo)
  • Dificuldades sensoriais (Hipo ou Hipersensibilidade)
  • Resistência à mudanças.

Cerca de 40% dos indivíduos dentro do espectro do autismo apresentam também deficiência intelectual, enquanto outros apresentem QIs acima da média. As habilidades de aprendizagem, pensamento e resolução de problemas das pessoas com TEA podem variar de superdotadas a severamente desafiadas.

Um pouco de história

O termo “autismo” foi utilizado pela primeira vez pelo pesquisador suíço Eugene Bleuler, em 1908, para indicar uma perda de contato do indivíduo com a realidade, por meio do voltar-se ao eu, a “si”.

Por isso, o termo “auto”. Neste momento os sinais eram relacionados aos aspectos da esquizofrenia em adultos.

No ano de 1943, o psiquiatra infantil e diretor do serviço de psiquiatria infantil do Hospital Johns Hopkins, Leo Kanner, após acompanhar a rotina de 11 crianças que mostraram desde o nascimento uma acentuada falta de interesse por outras pessoas, mas um importante e altamente incomum foco num ambiente inanimado, publicou o artigo “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”.

Ele então toma emprestada a nomenclatura de Bleuler e, pela primeira vez, fez uso do termo “autismo infantil”.

Portanto, os sinais clínicos não eram idênticos aos descritos pelo pesquisador suíço e, ao contrário da esquizofrenia, os pacientes de Kanner pareciam ter autismo desde o nascimento.

Em 1944, o psiquiatra austríaco Hans Asperger publica estudo em que as crianças com autismo apresentavam limitações, mas com certa desenvoltura cognitiva e inteligência.

É dele que vem o nome “Síndrome de Asperger” – considerada uma condição relacionada ao autismo, porém mais leve.

Hoje a Síndrome de Asperger integra o conceito de Transtorno do Espectro do Autismo (nível 1) cunhado em maio de 2013, com o lançamento da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V) da Associação Americana de Psiquiatria.

Leia também: Por que o autismo não é doença?

Saiba mais

• Dia 2 de abril é data em que a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou como o Dia Mundial da Conscientização do Autismo.

O objetivo da iniciativa é promover a reflexão e conscientização sobre o assunto, bem como desmistificar preconceitos ainda existentes acerca do TEA.

• Os cientistas mundialmente conhecidos por suas extensas contribuições à humanidade, Albert Einstein e Isaac Newton, podem foram considerados clássicos portadores de autismo leve (Síndrome de Asperger).

Esta perspectiva foi apontada por pesquisadores da Universidade de Cambridge e da Universidade de Oxford, estudaram as personalidades e a biografia de ambos.

Leia também:

Como é realizado o diagnóstico do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)?

Importância do diagnóstico e intervenção precoce no desenvolvimento dos autistas

Comorbidades comuns no autismo

Referências:

The National Autistic Society
Autism Science Foundation
From Kanner to DSM-5: autism as an evolving diagnostic concept

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Dra. Fabiele Russo

Neurocientista, especialista em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Pesquisadora na área do TEA há mais de 10 anos. Mestre e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com Doutorado “sanduíche” no exterior pelo Departamento de Pediatria da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD). Realizou 4 Pós-doutorados pela USP. É cofundadora da NeuroConecta e também, coautora do livro: Autismo ao longo da vida.