Estudo apresenta um novo horizonte para o Transtorno do Espectro do Autismo

Brasileiros publicam estudo pioneiro que apresenta um novo horizonte para o Transtorno do Espectro do Autismo.

Sobre a tecnologia

Pesquisadores brasileiros descobriram o que pode ser um novo horizonte para quem possui Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Surpreendentemente, por meio de uma tecnologia de reprogramação celular, cientistas identificam pela primeira vez o papel do astrócito, uma importante célula no sistema nervoso.

Assim, eles verificaram que além dos neurônios, outro importante grupo de células do cérebro chamadas “astrócitos” possui papel fundamental no funcionamento do sistema neuronal, sendo peça-chave para compreender o mecanismo do espectro e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento do tratamento para o distúrbio, de maneira personalizada.

Além disso, este é o primeiro artigo no mundo a analisar o papel dos astrócitos no autismo idiopático, ou seja, de causa desconhecida.

Denominado “Modelando a interação entre neurônios e astrócitos no autismo usando células-tronco pluripotentes induzidas por humanos” (tradução livre), o estudo – de autoria de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade da California, San Diego – acaba de ser publicado no periódico científico Biological Psychiatry, revista oficial da Sociedade de Psiquiatria Biológica.

Sobre os astrócitos

Aliás, antigamente se acreditava que os astrócitos eram apenas uma espécie de suporte físico para os neurônios.

Agora, isso mudou. “Verificamos que os astrócitos são na verdade muito importantes no TEA. Estas células são responsáveis por sustentar e nutrir os neurônios e estão envolvidos em diversas atividades cerebrais.

Desta forma, eles regulam a concentração de diversas substâncias do sistema neuronal, tendo assim potencial para interferir nas funções cerebrais de quem tem o espectro autista”, esclarece a autora principal, a neurocientista Fabiele Russo, que também é a idealizadora do portal NeuroConecta. (confira ao final entrevista com Fabiele Russo e saiba mais sobre sua tese de doutorado, que originou o paper).

O que foi observado?

Então, “procuramos entender de que forma o astrócito autista influência no neurônio saudável e vice e versa”, relata Dra. Fabiele.

Assim, os cientistas analisaram neurônios e astrócitos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), obtidas a partir da polpa do dente de leite de três pacientes com transtorno autista e três sem autismo ou qualquer outro transtorno neurológico – as chamadas crianças neurotípicas (grupo controle).

“A descoberta demonstrou que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio poderá ser recuperado. Ou seja, o astrócito com autismo influi no neurônio controle. E o contrário também é verdadeiro. O astrócito saudável recuperou de alguma forma o neurônio afetado pelo distúrbio”, explica a neurocientista.

Portanto percebeu-se que não deve se focar apenas em testar drogas direcionadas para tratar neurônios, mas também para os astrócitos.

Embora ainda que haja muito a se caminhar até que seja possível aplicar os achados na prática em pessoas com o distúrbio, a neurocientista considera os resultados como um divisor de águas no tratamento do TEA.

“Acreditamos que nosso estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro autista, trazendo contribuições para a comunidade científica e, sobretudo, aos pacientes, que poderão se beneficiar de intervenção terapêutica direcionado para sua especificidade dentro do TEA”, avalia a neurocientista.

Ela complementa que é por meio da intervenção terapêutica no desenvolvimento do autista que é possível ampliar a independência funcional e possibilitar qualidade de vida do autista e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento de diferentes competências: sociais, de linguagem, motoras, psicológicas e intelectuais.

Primordialmente, esse estudo, que contou com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), faz parte do Projeto Fada do Dente sendo o primeiro da iniciativa a ter seus resultados publicados em revista científica.

Sobre o Projeto A Fada do Dente

O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da Professora da USP Patrícia Beltrão Braga.

Então, O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo. Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

Acesse “Modeling the interplay between neurons and astrocytes in autism using human induced pluripotent stem cells” em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006322317320097

Leia também em NeuroConecta:

Minicérebros para o estudo do TEA

Saiba mais sobre o autismo

O autismo ou “Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)”, é caracterizado por uma desordem cerebral que impacta no desenvolvimento da pessoa, podendo interferir na forma como ela percebe o mundo ao redor e interage com os outros, ocasionando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais.

Trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

Estima-se que o autismo atinge cerca de 1-2% da população mundial.

Com isso, temos cerca de 2-4 milhões de autistas no Brasil.

NeuroConecta Entrevista: diálogos com a pesquisadora

Compreendendo o impacto dos astrócitos no TEA

Conversamos com a neurocientista Fabiele Russo, autora principal do primeiro estudo a analisar a influência dos astrócitos no transtorno do espectro do autismo.

Fabiele, que é idealizadora do Blog NeuroConecta, esclarece que este estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro do autismo, trazendo benefícios para a comunidade científica e, sobretudo, aos indivíduos, que poderão se beneficiar no futuro.

Saiba mais.

NeuroConecta: De que forma os resultados alcançados neste estudo contribuem/impactam tanto para a comunidade científica quanto para os pacientes com TEA?

Fabiele Russo: Este é o primeiro trabalho que relaciona os astrócitos com o autismo idiopático. Há estudos sobre papel desta célula no sistema nervoso, mas com este recorte específico no espectro do autismo, somos os pioneiros.

Por meio desta pesquisa uma nova perspectiva se abre. A de olhar para os astrócitos. Isso possibilitou compreender que não adianta tratar o neurônio se o astrócito continuar doente.

Conseguimos compreender que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio será recuperado. O próximo passo será desenvolver novas vias de tratamento voltadas não apenas para os neurônios, mas para os astrócitos.

Este estudo faz parte do Projeto Fada do Dente, do qual fui uma das primeiras alunas a ingressar, em 2009.

O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da bióloga Patrícia Beltrão Braga e sua equipe. O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo.

Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

NeuroConecta: Qual o papel dos astrócitos na manutenção neuronal? De que forma eles contribuem com o entendimento do TEA?

Fabiele Russo: Sempre nos preocupamos com neurônios quando pensamos numa doença ou transtorno ligado ao sistema nervoso central. Agora, sabemos que eles não são os únicos a se observar dentro do universo do espectro autista. O astrócito é fundamental.

Ele é a célula da glia mais abundante do sistema nervoso central. Se ele não estiver bom, o neurônio poderá ser afetado. Esta célula participa de várias funções cerebrais: nutrição, suporte na sinaptogênese (conexão entre os neurônios), entre outros aspectos.

Antigamente acreditava-se que os astrócitos serviam apenas como um suporte mecânico. Hoje sabemos que estas células têm diversas funções: são responsáveis por nutrir os neurônios, entram em contato com os vasos sanguíneos, pegam o alimento e enviam para os neurônios.

É o astrócito que participa das sinapses (conexões entre neurônios). Um único astrócito participa de milhares de sinapses ao mesmo tempo, e da produção de novas conexões nervosas (sinaptogênese).

Este mecanismo do astrócito em conjunto com os neurônios é responsável pelo surgimento de capacidades funcionais.

NeuroConecta: Como a reprogramação celular, por meio do uso de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), tem modificado o cenário do TEA?

Fabiele Russo: Primeiramente, é preciso esclarecer que a reprogramação celular hoje não é para diagnóstico, mas sim têm sido empregada com êxito no campo da medicina terapêutica, como meio de estudar os mecanismos de determinada doença ou transtorno, como o transtorno do espectro do autismo, e utilizar essa plataforma para testar drogas-alvo.

Quando falamos em terapêutico, não é injetar células-tronco nos pacientes, mas sim testar medicamentos na célula do paciente que você coletou e reprogramou.

No caso, nossa matéria-prima é o material coletado da polpa do dente de crianças com autismo.

Coletamos a célula do dente e reprogramamos para ter uma célula pluripotente, que é parecida com uma célula embrionária, e a partir desta célula nós produzimos a chamada célula-alvo de interesse.

No caso do autismo – estas células são os neurônios e astrócitos. Então, podemos testar drogas nestas células, pensando que ela terá o material genético daquele paciente.

Além disso, como o autismo idiopático é um transtorno muito complexo, sem causa genética específica, esta prática é super interessante, sobretudo, dentro da medicina personalizada.

Poderemos testar a ação e eficácia de cada medicamento para este indivíduo. Esta é a chamada medicina personalizada, que acredito ser o futuro terapêutico para o TEA e para outros distúrbios.

Concluindo

Enfim, nossos dados indicam que os astrócitos influenciam na maturação, na complexidade e funcionalidade dos neurônios, mostrados aqui pela primeira vez para o autismo idiopático.

Além disso, com este trabalho podemos afirmar que é possível modelar o autismo idiopático in vitro e estudar formas de resgate fenotípico das células afetadas visando futuras terapias.

Assim, observamos também que, por meio da reprogramação celular, pode ser possível reduzir o tempo de aprovação de drogas (as novas e as que já tem liberação para uso) que podem contribuir para o tratamento clínico do TEA, sem a necessidade de passar por diversas etapas de testes.

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Minicérebros para o estudo do Transtorno do Espectro do Autismo

Os minicérebros são gerados a partir de células-tronco de indivíduos com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e são compostos de inúmeros neurônios, astrócitos e outras células que compõem o cérebro humano.

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento muito complexo e ainda sem causa definida.

Diferente por exemplo da Síndrome de Down, que se sabe que é causada por uma trissomia do cromossomo 21.

Em relação ao TEA já foram relatados centenas de alterações genéticas, fatores epigenéticos e ambientais, mas ainda temos dúvidas em relação à sua origem.

Exatamente pelo fato da diversidade entre os indivíduos com TEA, a ciência vem buscando ferramentas cada vez mais personalizados para estudar os mecanismos envolvidos neste transtorno.

Da mesmas forma para o desenvolvimento de fármacos e tratamentos cada vez mais personalizados, buscando assim uma medicina cada vez mais personalizada.

Uma ferramenta utilizada por neurocientistas renomados no mundo inteiro para estudar doenças do Sistema Nervoso, também está sendo utilizada aqui no Brasil pelo grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) que a Dra Fabiele Russo faz parte. Essa tecnologia é a produção de minicérebros.

Saiba mais: Autismo:é possível sair do espectro?

O que são os minicérebros?

Os minicérebros produzidos em laboratório formam camadas similares as que existem no córtex cerebral. O córtex é a estrutura responsável pelo processamento das informações no sistema nervoso. Os minicérebros não tem a estrutura completa do cérebro, mas ele simula a organização do cérebro humano, tornando-se assim, um bom modelo científico.

Sobre a tecnologia

Essa tecnologia vem sendo utilizada como plataforma para teste de drogas.

A partir das células-tronco é possível produzir um grande número de minicérebros e com isso testar inúmeras drogas ao mesmo tempo, permitindo assim uma comparação simultânea entre as drogas testadas.

Além disso, essa ferramenta nos permite reduzir o uso de animais de laboratório, o que é um ponto muito importante.

Na imagem acima é possível observar os minicérebros de indivíduos com TEA produzidos no laboratório pela Dra. Fabiele Russo, neurocientista que estuda o autismo desde 2011.

Leia também: Neuroplasticidade no TEA

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TDAH: Sinais, sintomas e tratamento

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma das mais comuns desordens neurológicas diagnosticada na infância.

É caracterizado por dificuldades persistentes de atenção, hiperatividade e impulsividade.  É um transtorno neurobiológico de causas genéticas que se inicia antes dos 12 anos, e em muitos casos antes dos 7 anos.

Portanto, as pessoas com TDAH podem ter problemas para se concentrar, controlar impulsos e podem ser excessivamente ativas. Embora o transtorno seja frequentemente diagnosticado na infância, pode persistir até a vida adulta, influenciando vários aspectos da vida diária.

Aliás, assim como o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) o TDAH afeta mais meninos do que meninas.

Sintomas do TDAH

Os sintomas do TDAH podem variar de pessoa para pessoa e se manifestam de maneira diferente em crianças e adultos.

Portanto, alguns dos sinais mais comuns incluem dificuldade em manter o foco em tarefas, inquietação, dificuldade em seguir instruções, impulsividade, dificuldade em completar tarefas, problemas de organização e tendência a agir sem pensar nas consequências.

Causas e Fatores de Risco

Embora a causa exata do TDAH ainda não seja clara, pesquisas sugerem uma combinação de fatores genéticos, ambientais e neurobiológicos.

Portanto, fatores de risco incluem histórico familiar de TDAH, exposição a toxinas ambientais durante a gravidez, nascimento prematuro e baixo peso ao nascer.

Sobre o diagnóstico

O diagnóstico do TDAH é difícil, pois muitas vezes é confundido com problemas na educação, ansiedade ou dislexia por exemplo. Esse transtorno é normalmente diagnosticado pelo médico pediatra, psiquiatra ou neurologista.

Ademais, o diagnóstico do TDAH dever ser feito com base em critérios específicos descritos do DSM-5.

Assim, o diagnóstico deve ser realizado pelo médico pediatra, psiquiatra ou neurologista, juntamente com o apoio da equipe multidisciplinar.

É importante realizar uma avaliação abrangente que considere a história clínica, os sintomas relatados e a observação do comportamento.

Prevalência

A prevalência de TDAH entre as crianças na população dos EUA aumentou de 2,9% em 1996 para 5,2% em 2009.

O TDAH é um transtorno mais comum em crianças e adolescente, surge na infância, mas pode acompanhar o indivíduo até a fase adulta.

Estudos mostram que cerca de 60% das crianças carregam o TDAH para a vida adulta, por isso a importância do diagnóstico e tratamento precoce.

Esse transtorno afeta negativamente a auto-estima das pessoas afetadas. Crianças e adultos com TDAH são mais vulneráveis a baixa auto-estima do que outras pessoas.

Tratamento

O tratamento da pessoa com TDAH deve ser iniciado o quanto antes e é realizado por uma equipe multidisciplinar composta por profissionais como neuropediatra, neurologista, psicólogos, psicomotricistas, fonoaudiólogos entre outros.

Ademais, a intervenção medicamentosa é indicada em alguns casos e deve ser sempre acompanhada por um médico responsável.

Inegavelmente, o TDAH é umas das principais comorbidades associadas ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e quanto antes iniciar o tratamento melhores serão os resultados.

Leia também: Comorbidades comuns no autismo

Referências:

Gupte-Singh K, Singh RR, Lawson KA. Economic Burden of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder among Pediatric Patients in the United States. Value Health. 2017 Apr;20(4):602-609. doi: 10.1016/j.jval.2017.01.007.

Faraone SV, Biederman J, Mick E. The age-dependent decline of attention deficit hyperactivity disorder: a meta-analysis of follow-up studies. Psychol Med. 2006 Feb 1;36(02):159–65.

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