Os transtornos da comunicação incluem déficits na linguagem, na fala e na comunicação. Fala é a produção expressiva de sons e inclui a articulação, a fluência, a voz e a qualidade da ressonância de um indivíduo. Linguagem inclui a forma, a função e o uso de um sistema convencional de símbolos (i.e., palavras faladas, linguagem de sinais, palavras escritas, figuras), com um conjunto de regras para a comunicação. Comunicação inclui todo comportamento verbal e não verbal (intencional ou não) que influencia o comportamento, as ideias ou as atitudes de outro indivíduo.

A categoria diagnóstica dos transtornos da comunicação inclui: transtorno da linguagem, transtorno da fala, transtorno da fluência com início na infância (gagueira), transtorno da comunicação social (pragmática) e outro transtorno da comunicação especificado e não especificado.

Os pais e educadores costumam ser os primeiros a identificar que a criança logo na primeira infância apresenta algum tipo de transtorno da comunicação.

É muito comum que a criança não consiga falar de forma adequada, trocando os sons, não conseguindo elaborar frases ou contar histórias.

Por conta disso, pode atrapalhar tanto a leitura quanto a escrita, dificultando a alfabetização. Além disso, compromete a autoestima e a interação social das crianças.

As causas podem variar: geralmente, acontece por questões genéticas, degenerativas ou devido a lesões.

Vale destacar que o diagnóstico precoce é fundamental. Geralmente, os pais buscam um pediatra e são realizados exames para descartar problemas de audição. Mas não existe um exame específico que determine o transtorno, apenas a observação dos sintomas. É fundamental procurar um fonoaudiólogo especialista.

Os transtornos de comunicação podem ocorrer na presença de outras condições, como:

  • Transtorno Específico da Aprendizagem
  • Transtorno do espectro do autismo (TEA)
  • Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)
  • Transtorno do desenvolvimento da coordenação
  • Distúrbios psicológicos/emocionais

 

Abaixo, saiba mais sobre os principais transtornos de comunicação:

 

Transtorno da linguagem

 As características centrais do transtorno da linguagem incluem dificuldades na aquisição e no uso da linguagem por déficits na compreensão ou na produção de vocabulário e na estrutura das frases.  O transtorno costuma afetar o vocabulário e gramática, e esses efeitos passam a limitar a capacidade para o discurso. As primeiras palavras e expressões da criança possivelmente surgem com atraso; o tamanho do vocabulário é menor e menos variado do que o esperado, e as frases são mais curtas e menos complexas. As dificuldades com o discurso são evidenciadas pela redução da capacidade de fornecer informações adequadas sobre eventos importantes e de narrar uma história coerente.

As pessoas com o transtorno podem apresentar problemas para encontrar palavras, definições verbais pobres ou compreensão insatisfatória de sinônimos, para recordar palavras e frases novas ficam evidentes por dificuldades em seguir instruções com mais palavras, dificuldades para ensaiar encadeamentos de informações verbais (por exemplo, recordar um número de telefone ou uma lista de compras) e dificuldades para lembrar sequências sonoras novas, uma habilidade que pode ser importante para o aprendizado de palavras novas.

Esses déficits linguísticos ficam evidentes na comunicação falada, escrita ou na linguagem de sinais. A aprendizagem e o uso da linguagem dependem de habilidades receptivas e expressivas. Capacidade receptiva refere-se ao processo de receber e compreender as mensagens linguísticas, já a capacidade expressiva refere-se à produção de sinais vocálicos, gestuais ou verbais.  As habilidades expressivas e receptivas precisam ser investigadas, uma vez que podem diferir quanto à gravidade. Por exemplo, a linguagem expressiva de um indivíduo pode estar gravemente prejudicada, enquanto que a receptiva pode não apresentar nenhum prejuízo.

Um diagnóstico de transtorno da linguagem pode ser feito com base na síntese da história do indivíduo, na observação clínica direta em contextos variados e em escores de testes padronizados de capacidade linguística, que podem ser empregados para orientar estimativas da gravidade.

 

Transtorno da fala

 A produção da fala descreve a articulação clara de fonemas (sons individuais), que, combinados, formam as palavras faladas. Essa produção exige tanto o conhecimento fonológico dos sons da fala quanto a capacidade de coordenar os movimentos dos articuladores (mandíbula, língua e lábios) com a respiração e a vocalização para a fala.

Crianças com dificuldades para produzir a fala podem apresentar dificuldade no reconhecimento fonológico dos sons da fala ou na capacidade de coordenar os movimentos para falar, nos mais variados graus. O transtorno da fala é, desse modo, heterogêneo em seus mecanismos subjacentes, incluindo transtorno fonológico e transtorno da articulação.

Um transtorno da fala é diagnosticado quando a produção da fala não ocorre como esperado, de acordo com a idade e o estágio de desenvolvimento da criança, e quando as deficiências não são consequências de prejuízo físico, estrutural, neurológico ou auditivo. Entre crianças com desenvolvimento típico, aos 4 anos de idade a fala geral deve ser totalmente compreendida e clara.

 

Transtorno da fluência com início na infância (gagueira)

 O transtorno da fluência com início na infância, conhecida como gagueira, é uma perturbação na fluência normal da fala inapropriada à idade do indivíduo. Essa perturbação caracteriza-se por repetições frequentes ou prolongamentos de sons ou sílabas e por outros tipos de disfluências da fala, incluindo palavras interrompidas (pausas no meio de uma palavra), circunlocuções (substituições de palavras para evitar palavras problemáticas), palavras produzidas com excesso de tensão física e repetições de palavras monossilábicas (por exemplo, “Eu-eu-eu-eu quero”).

A perturbação na fluência pode interferir no sucesso acadêmico, profissional e na comunicação social. A gravidade da perturbação varia conforme a situação e costuma ser mais grave quando há pressão para se comunicar, por exemplo se a pessoa precisa apresentar um trabalho na escola ou fazer entrevista para emprego.

É bastante comum a gagueira estar ausente durante a leitura, o ato de cantar e conversar com objetos inanimados ou animais de estimação.

 

Transtorno da comunicação social (pragmática)

O transtorno da comunicação social (pragmática) caracteriza-se por uma dificuldade primária com a pragmática, ou o uso social da linguagem e da comunicação, conforme evidenciado por déficits em compreender e seguir regras sociais de comunicação verbal e não verbal em contextos naturais, adaptar a linguagem conforme as necessidades do ouvinte ou da situação e seguir as regras para conversar e contar histórias.

Déficits na comunicação social resultam em limitações funcionais na comunicação efetiva, na participação social, no desenvolvimento de relações sociais, no sucesso acadêmico ou no desempenho profissional. Esses déficits não são mais bem explicados por baixas capacidades nos domínios da linguagem estrutural ou capacidade cognitiva.

 

Formas de tratamento e intervenções

Crianças com problemas de linguagem geralmente precisam de ajuda extra e instruções especiais. Os fonoaudiólogos podem trabalhar diretamente com crianças e seus pais, responsáveis e professores.

A intervenção precoce pode contribuir para que a criança não prejudique o seu desenvolvimento, habilidades de comunicação e melhora o aprendizado escolar. Por isso, o tratamento deve ser iniciado assim que o diagnóstico for definido.

 

Referências:

DSM-5 – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais

https://www.cdc.gov/ncbddd/childdevelopment/language-disorders.html

https://www.healthline.com/health/mixed-receptive-expressive-language-disorder

Neurocientista que estuda o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há mais de 10 anos, Fabiele Russo é Mestre e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com Doutorado sanduíche no exterior pelo Departamento de Pediatria da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD) e Pós-doutorado pela USP. Possui ampla experiência na área do autismo.