Seletividade alimentar no autismo: como vencer barreiras

É comum muitos pais e cuidadores de crianças no Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) relatarem que encontram dificuldades com a alimentação por conta da seletividade alimentar dos autistas.

A seletividade alimentar pode tornar o ato de comer desafiador. Estima-se que uma média de 70% das crianças no espectro do autismo apresentem algum tipo de problema ou seletividade alimentar, que pode permanecer inclusive na adolescência e na vida adulta.

Mas, como vencer essas barreiras da seletividade – que incluem limitações sensoriais como gostos, cheiros, texturas (alimentos macios e escorregadios costumam ser recusados), cores e conseguir promover o acesso a uma diversidade nutricional?

Se a criança estiver no processo de introdução alimentar, procure proporcionar a ela uma experiência rica do ponto de vista da qualidade nutricional da comida.

Nesse período de descobertas é um bom momento de explorar esse amplo universo de frutas, verduras, legumes, carnes e tudo o mais. Assim, pode ser possível ampliar o leque de opções daquelas comidas que a criança aceita, em detrimento daquelas que ela tenha alguma aversão.

Uma das maneiras de estimular a criança a interagir com os alimentos é integrá-la na escolha, desde a compra de uma fruta, legume, verdura (ou o que for) e convidá-la a acompanhar e/ou participar do preparo. Muitas vezes pode ser que ele ainda assim se recuse a comer em um primeiro momento.

Já para lidar com a ansiedade que pode surgir frente a um novo alimento, procure introduzi-lo gradativamente.

Por isso, procure manter a oferta outras vezes. O que hoje pode não ser aceito, amanhã pode funcionar. Assim como ocorre com uma criança neurotípica (fora do espectro) o processo de familiarização com a elaboração da refeição pode ajudar a alcançar uma dieta mais rica em termos nutricionais.

Procure também deixar que a criança escolha um alimento do qual goste para incluir com mais frequência junto aos outros não tão “bem quistos”.

Quanto à textura, vale oferecer o alimento de diferentes maneiras possíveis. Em pedaços, amassado, triturado, batido. Deixar pegar com as mãos, levar à boca com a colher.

Idealmente deve se respeitar o tempo da criança e a vontade de comer. Isso contribuirá com o êxito desse processo.

Lembre-se de observar elementos como a luz que ilumina a mesa, barulhos externos, o prato. Tudo ao redor pode contribuir para “roubar” a atenção da criança no espectro e dificultar a refeição. Reduzir esses estímulos do ambiente é uma medida importante.

Compreender se há alguma intolerância ou alergia a determinado alimento também é indicado. Às vezes as recusas podem se dar por esses fatores. Essa investigação deve ser feita por um especialista médico e/ou nutricionista.

Evite elaborar por conta própria dietas restritivas e alternativas. O acompanhamento de um nutricionista é essencial para que haja o melhor aproveitamento dos alimentos, em favor do desenvolvimento infantil.

Em se tratando de desenvolver habilidades alimentares na criança no TEA, tenha sempre em mente que quanto mais forem geradas oportunidades de descobrir os alimentos, mais se ampliará o acesso às fontes nutricionais necessárias para a saúde física e mental.

Para evitar uma dieta nutricionalmente defasada, evite alimentos ultraprocessados, salgadinhos de pacote, refrigerantes e outros produtos que possam tomar o lugar de comida que seja fonte de nutrientes essenciais como cálcio, ferro, proteína e tantos outros.

Outro ponto fundamental é levar em conta que os pais são exemplos. Saiba que sua postura frente aos alimentos influência também. Se você espera que seu filho esteja mais disponível a provar comidas saudáveis e nutritivas, comece as colocando em seu prato.

Sempre que possível, faça parte integrativa das refeições – tanto no que cabe a sua presença, quanto naquilo que irá comer.

Fazer parte das refeições pode contribuir ainda mais para romper as barreiras da seletividade alimentar ocasionada pelas limitações comuns ao transtorno.

Referências:
Autism Speaks. Encouraging picky eaters autism try new foods. Disponível em <https://www.autismspeaks.org/blog/2012/11/09/encouraging-picky-eaters-autism-try-new-foods>

Karen Ansel. Autism Spectrum Disorders (ASD) and Diet. Eating Right. Disponível em https://www.eatright.org/health/diseases-and-conditions/autism/nutrition-for-your-child-with-autism-spectrum-disorder-asd Acessado em 15 de março de 2018.

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Dra. Fabiele Russo

Neurocientista, especialista em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Pesquisadora na área do TEA há mais de 10 anos. Mestre e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com Doutorado “sanduíche” no exterior pelo Departamento de Pediatria da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD). Realizou 4 Pós-doutorados pela USP. É cofundadora da NeuroConecta e também, coautora do livro: Autismo ao longo da vida.