Se você tem um filho ou filha com autismo, provavelmente já ouviu alguma dica de tratamento milagroso que “cura” o Transtorno. Primeiramente, vale a pena reforçar que o autismo não é uma doença, ou seja, não pode ser curado. E o que melhora as habilidades e qualidade de vida dos autistas são intervenções precoces e práticas baseadas em evidências.

Mas, o que não faltam são notícias falsas sobre o assunto que podem até mesmo colocar a saúde das crianças em risco. É muito importante que os pais e responsáveis fiquem atentos e tirem dúvidas com os profissionais  especialistas na área e sigam suas orientações.

Ao receber um diagnóstico de autismo, os pais podem ser influenciados a usar produtos inadequados como solução de um problema real. Muitos encontram informações falsas e buscam apoio em outros pais que, do mesmo modo, passam pela mesma situação.

Em conclusão, por falta de conhecimento, desespero ou medo, os pais podem cair nessas ciladas, se iludirem e complicar a saúde dos seus filhos.

Vale a pena reforçar que nenhum relato pessoal, mesmo de pessoas muito próximas, deve se comparar a estudos científicos  que levam anos para serem comprovados. É importante acreditar na ciência e nas pesquisas de instituições reconhecidas e que são realizadas em todo o mundo.

A seguir, veja detalhes de algumas fake news de tratamentos do autismo.

 

MMS

A sigla vem do inglês Mineral Miracle Solution (Solução Mineral Milagrosa “cura”) e é uma substância vendida como medicamento que possui uma composição parecida com a água sanitária.

Infelizmente, essa substância se tornou popular entre os familiares de pessoas com autismo. Alguns pais e cuidadores acreditam que as crianças poderiam ser curadas ao ingerir o MMS.

É importante esclarecer que não há comprovação científica dos benefícios do MMS para o autismo ou qualquer outra condição de saúde. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) até mesmo proibiu a venda do produto.

O falso medicamento é dado para as crianças via oral ou retal e podem fazer muito mal para o organismo. Alguns especialistas relatam que o uso contínuo deixa a pessoa debilitada, provoca picos de anemia e até morte.

 

Câmara hiperbárica

A técnica envolve respirar oxigênio em uma câmara pressurizada e com a intenção de melhorar os sintomas do autismo. É um recurso bastante caro, e não há nenhuma comprovação científica.

 

Quelação

Usa medicamentos pesados com a intenção de remover metais tóxicos. Supostamente, os metais seriam os responsáveis pelo autismo. Eles podem ser encontrados em várias formas: sprays, supositórios, cápsulas, gotas e banhos de argila.

Obviamente, não há comprovação científica sobre o assunto. Além disso, a quelação de minerais pode provocar problemas renais, hepáticos e até levar a uma parada cardíaca. É muito perigoso.

 

Ômega 3

Algumas pessoas acreditam que o suplemento ômega 3 poderia amenizar os sintomas de autismo.

No caso do ômega 3 supõe-se que ele contribui com o funcionamento do cérebro e reduz o déficit de linguagem em autistas. No entanto, não há nenhuma comprovação científica sobre os seus benefícios para os autistas.

Pelo contrário, diversos estudos apontam que a suplementação com ômega 3 não causou qualquer melhoria de sintomas em autistas como agressividade e hiperatividade, mesmo após seis meses de uso.

Além disso, os cientistas não encontraram evidências de que o ômega 3 melhore a interação social, a comunicação e os comportamentos estereotipados.

 

Intervenções na dieta

Há ainda a lenda de que realizar mudanças na alimentação pode diminuir os sintomas do autismo. Muitas pessoas apostam em intervenções na dieta como excluir o glúten (presente nos cereais) ou a caseína (proteína do leite).

Algumas pessoas apresentam algum tipo de alergia a esses itens e não podem consumir os alimentos derivados. Mas, não existem evidências científicas que associam o glúten e a caseína ao autismo. Nem é possível afirmar que a dieta do autista deve ser alterada. Somente em casos de alergias ou intolerância.

 

Dicas para evitar cair em golpes de tratamentos milagrosos

  • Desconfie de produtos que afirmam tratar uma ampla gama de doenças;
  • Os testemunhos pessoais não substituem as evidências científicas;
  • Poucas condições podem ser tratadas rapidamente. Portanto, desconfie de qualquer terapia alegada como uma “solução rápida”.
  • As chamadas “curas milagrosas”, que alegam ter ingredientes secretos, são provavelmente uma farsa.
  • Pode ser feito por qualquer pessoa sem qualificações.
  • As terapias custam muito dinheiro e não são acessíveis.

 

Referências:

https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/be-aware-potentially-dangerous-products-and-therapies-claim-treat-autism

https://www.healthline.com/health-news/parents-warned-about-bleach-therapy-for-autism#4

https://www.nhs.uk/conditions/autism/autism-and-everyday-life/fake-and-harmful-treatments/

Neurocientista que estuda o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) há quase 10 anos, Fabiele Russo é Mestre e Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) com Doutorado no exterior pelo Departamento de Pediatria da Universidade da Califórnia, San Diego (UCSD) e Pós-doutorado pela USP. Possui ampla experiência na área do autismo.