Brasileiros publicam estudo pioneiro que apresenta um novo horizonte para o Transtorno do Espectro do Autismo

18 de out de 2017

Por meio de reprogramação celular, cientistas identificam pela primeira vez o papel do astrócito – uma importante célula no sistema neuronal – no tratamento do TEA

Pesquisadores brasileiros descobriram o que pode ser um novo horizonte para quem possui Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Eles verificaram que além dos neurônios, outro importante grupo de células do cérebro chamadas “astrócitos” possui papel fundamental no funcionamento do sistema neuronal, sendo peça-chave para compreender o mecanismo do espectro e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento do tratamento para o distúrbio, de maneira personalizada.

Este é o primeiro artigo no mundo a analisar o papel dos astrócitos no autismo idiopático, ou seja, de causa desconhecida. Denominado “Modelando a interação entre neurônios e astrócitos no autismo usando células-tronco pluripotentes induzidas por humanos” (tradução livre), o estudo – de autoria de cientistas da Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade da California, San Diego – acaba de ser publicado no periódico científico Biological Psychiatry, revista oficial da Sociedade de Psiquiatria Biológica.

Antigamente se acreditava que os astrócitos eram apenas uma espécie de suporte físico para os neurônios. Agora, isso mudou. “Verificamos que os astrócitos são na verdade muito importantes no TEA. Estas células são responsáveis por sustentar e nutrir os neurônios e estão envolvidos em diversas atividades cerebrais. Além disso, eles regulam a concentração de diversas substâncias do sistema neuronal, tendo assim potencial para interferir nas funções cerebrais de quem tem o espectro autista”, esclarece a autora principal, a neurocientista Fabiele Russo, que também é a idealizadora do portal NeuroConecta. (confira ao final entrevista com Fabiele Russo e saiba mais sobre sua tese de doutorado, que originou o paper).

A pesquisa comparou o material genético obtido por meio de reprogramação celular. Assim, os cientistas analisaram neurônios e astrócitos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), obtidas a partir da polpa do dente de leite de três pacientes com transtorno autista e três sem autismo ou qualquer outro transtorno neurológico – as chamadas crianças neurotípicas (grupo controle).

“Procuramos entender de que forma o astrócito autista influi no neurônio saudável e vice e versa”, relata Fabiele. “A descoberta demonstrou que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio poderá ser recuperado. Ou seja, o astrócito com autismo influi no neurônio controle. E o contrário também é verdadeiro. O astrócito saudável recuperou de alguma forma o neurônio afetado pelo distúrbio”, explica a neurocientista.

Com isso percebeu-se que não deve se focar apenas em testar drogas direcionadas para tratar neurônios, mas também para os astrócitos. Embora ainda que haja muito a se caminhar até que seja possível aplicar os achados na prática em pessoas com o distúrbio, a neurocientista considera os resultados como um divisor de águas no tratamento do TEA. “Acreditamos que nosso estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro autista, trazendo contribuições para a comunidade científica e, sobretudo, aos pacientes, que poderão se beneficiar de intervenção terapêutica direcionado para sua especificidade dentro do TEA”, avalia a neurocientista.

Ela complementa que é por meio da intervenção terapêutica no desenvolvimento do autista que é possível ampliar a independência funcional e possibilitar qualidade de vida do autista e, assim, contribuir com o aperfeiçoamento de diferentes competências: sociais, de linguagem, motoras, psicológicas e intelectuais.

O estudo, que contou com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), faz parte do Projeto Fada do Dente sendo o primeiro da iniciativa a ter seus resultados publicados em revista científica.

O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da bióloga Patrícia Beltrão Braga e sua equipe. O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo. Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

Acesse “Modeling the interplay between neurons and astrocytes in autism using human induced pluripotent stem cells” em http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006322317320097

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Conheça as opções terapêuticas para TEA

Sobre o autismo

O autismo ou “Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)”, é caracterizado por uma desordem cerebral que impacta no desenvolvimento da pessoa, podendo interferir na forma como ela percebe o mundo ao redor e interage com os outros, ocasionando desafios sociais, de comunicação (verbal ou não) e comportamentais. Trata-se de uma condição crônica, de uma deficiência neurológica, e não de uma doença.

Estima-se que o autismo atinge 1% da população, 70 milhões de pessoas no mundo conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Destes, 2 milhões estão no Brasil segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

NeuroConecta Entrevista: diálogos com o pesquisador

Compreendendo o impacto dos astrócitos no TEA

Conversamos com a neurocientista Fabiele Russo, autora principal do primeiro estudo a analisar a influência dos astrócitos no transtorno do espectro do autismo.

Fabiele, que é idealizadora do portal NeuroConecta, esclarece que este estudo abre novos horizontes para as pesquisas no campo do espectro autista, trazendo benefícios para a comunidade científica e, sobretudo, aos pacientes, que poderão se beneficiar de intervenção terapêutica direcionado para sua especificidade dentro do espectro autista.

Saiba mais.

NeuroConecta: De que forma os resultados alcançados neste estudo contribuem/impactam tanto para a comunidade científica quanto para os pacientes com TEA?

Fabiele Russo: Este é o primeiro trabalho que relaciona os astrócitos com o autismo idiopático. Há estudos sobre papel desta célula no sistema nervoso, mas com este recorte específico no espectro do autismo, somos os pioneiros.

Por meio desta pesquisa uma nova perspectiva se abre. A de olhar para os astrócitos. Isso possibilitou compreender que não adianta tratar o neurônio se o astrócito continuar doente.

Conseguimos compreender que ao tratar o astrócito, automaticamente o neurônio será recuperado. O próximo passo será desenvolver novas vias de tratamento voltadas não apenas para os neurônios, mas para os astrócitos. Esta é minha linha de pesquisa agora, no pós-doutorado.

Este estudo faz parte do Projeto Fada do Dente, do qual fui uma das primeiras alunas a ingressar, em 2009. O Projeto Fada do Dente, que teve início em 2009, é uma iniciativa da bióloga Patrícia Beltrão Braga e sua equipe. O Projeto arrecada dentes de leite de crianças com autismo. Com as células da polpa do dente, o projeto realiza uma reprogramação celular, transformando-as nas células-tronco que são diferenciadas em neurônio e, agora, astrócitos.

NeuroConecta: Qual o papel dos astrócitos na manutenção neuronal? De que forma eles contribuem com o entendimento do TEA?

Fabiele Russo: Sempre nos preocupamos com neurônios quando pensamos numa doença ou transtorno ligado ao sistema nervoso central. Agora, sabemos que eles não são os únicos a se observar dentro do universo do espectro autista. O astrócito é fundamental.

Ele é a célula da glia mais abundante do sistema nervoso central. Se ele não estiver bom, o neurônio poderá ser afetado. Esta célula participa de várias funções cerebrais: nutrição, suporte na sinaptogênese (conexão entre os neurônios), entre outros aspectos.

Antigamente acreditava-se que os astrócitos serviam apenas como um suporte mecânico. Hoje sabemos que estas células têm diversas funções: são responsáveis por nutrir os neurônios, entram em contato com os vasos sanguíneos, pegam o alimento e enviam para os neurônios.

É o astrócito que participa das sinapses (conexões entre neurônios). Um único astrócito participa de milhares de sinapses ao mesmo tempo, e da produção de novas conexões nervosas (sinaptogênese). Este mecanismo do astrócito em conjunto com os neurônios é responsável pelo surgimento de capacidades funcionais.

NeuroConecta: Como a reprogramação celular, por meio do uso de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC), tem modificado o cenário do TEA?

Fabiele Russo: Primeiramente, é preciso esclarecer que a reprogramação celular hoje não é para diagnóstico, mas sim têm sido empregada com êxito no campo da medicina terapêutica, como meio de estudar os mecanismos de determinado distúrbio ou patologia, como o transtorno do espectro do autismo, e utilizar essa plataforma para testar drogas-alvo.

Quando falamos em terapêutico, não é injetar células-tronco nos pacientes, mas sim testar medicamentos na célula do paciente que você coletou e reprogramou.

No caso, nossa matéria-prima é o material coletado da polpa do dente de crianças com autismo. Como funciona? Coletamos a célula do dente e reprogramos para ter uma célula pluripotente, que é parecida com uma célula embrionária, e a partir desta célula eu produzo a chamada célula-alvo de interesse.

No caso do autismo – estas células são o neurônio e astrócito. Então, eu testo drogas nestas células, pensando que ela terá o material genético daquele paciente.

Como autismo idiopático é um transtorno muito complexo, sem causa genética específica, esta prática é super interessante, sobretudo, dentro da medicina personalizada. Poderemos testar a ação e eficácia de cada medicamento para este indivíduo. Esta é a chamada medicina personalizada, que acredito ser o futuro terapêutico para o TEA e para outros distúrbios.

Em conclusão, nossos dados indicam que os astrócitos influenciam na maturação, na complexidade e funcionalidade dos neurônios, mostrados aqui pela primeira vez para o autismo idiopático. Além disso, com este trabalho podemos afirmar que é possível modelar o autismo idiopático in vitro e estudar formas de resgate fenotípico das células afetadas visando futuras terapias. Assim, observamos também que, por meio da reprogramação celular, pode ser possível reduzir o tempo de aprovação de drogas (as novas e as que já tem liberação para uso) que podem contribuir para o tratamento clínico do TEA, sem a necessidade de passar por diversas etapas de testes.

 

Na mídia

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